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Conheça os artistas selecionados no edital Outros Territórios

Projetos farão parte de galeria on-line e podem ser instalados nas palafitas do bairro Buritis
Por Redação Feira Cultural

O edital Outros Territórios – Chamada Internacional de Projetos para Intervenção Urbana elegeu os sete vencedores da primeira etapa do programa que serão apresentados numa exposição no Viaduto das Artes. É um instigante espaço cultural na região do Barreiro, instalado sob dois viadutos e sintonizado com o conceito geral da Chamada, que é explorar as possibilidades de ativação de lacunas urbanas.

Nuvem, de Juliana Sicuro Corrêa, é uma estrutura em tubos de aço galvanizado forma uma grid espacial, que intercepta a estrutura de concreto existente e nela é fixada. Junto a uma caixa d’água de reuso, compõe um sistema de irrigação e banho para plantas e pessoas. Um piso é criado dando acesso à cota elevada.

A caixa é então coberta por uma fina camada de tela agrícola que possibilita também o cultivo de ervas e hortaliças. A caixa vazia circunscreve um espaço-estufa. Cria um interno e também um por de trás. Uma nuvem flutua, esguicha, refresca, agrega e cultiva. O sol oferece boas condições de estar. O pomar floresce.

Trama, de João Nitsche, é um projeto de intervenção urbana feito especialmente para as estruturas/palafitas do bairro residencial de Buritis. As vigas e pilares destes “esqueletos urbanos” conformam enormes estruturas tridimensionais que servem de base para a construção do trabalho. A intervenção é composta por telas fachadeiras entrelaçadas às estruturas de um dos edifícios escolhidos para ser objeto desta proposta.

Propõe um uso inesperado das telas fachadeiras (referência à tecelagem artesanal), tão recorrentes na construção civil e em instalações desta natureza, criando tramas à maneira da lógica da cestaria ou de outras práticas populares no Brasil. Uma lógica reconhecível por todos, além de apropriável. Pensa de forma pertinente a formação de núcleos espaciais e a sua visibilidade noturna.

Dimensão Livrem, de Amanda Barbosa Da Silveira, trabalha é um conceito criado a partir de “uma aberração arquitetônica”, a edificação sob palafita localizada na rua Maria Heilbuth Surette, 1295, a gigante, foi escolhida para abrigar a intervenção dessa proposta pela sua alta visibilidade no nível do pedestre e sua oportunidade de abertura à rua.

O seu aspecto “submundano” e sua escala sob o terreno criam uma possibilidade de organizar um percurso permeando a palafita no sentido de vencer seu desnível e percorrer sua extensão. Subir, atravessar e descer. A proposta lança mão da movimentação e do reposicionamento de suas terras numa prerrogativa de evidenciar e questionar o valor da terra. A instalação se insere na paisagem com um aspecto cru a partir da escolha dos materiais – terra, pedra, metal e madeira – por meio de um circuito dividido em três trechos.

Dentre altos e baixos de terra batida e concreto, cheios e vazios, usos e não usos, a experiência se apresenta de forma dicotômica e sensorial. A instalação revela um caráter efêmero, precário e inútil da arquitetura indicando a irracionalidade de processos urbanos e políticos da disciplina edilícia.

Mostra Territórios Impróprios, de Pedro Maia, é um desdobramento de uma série de encontros sobre cinema promovidos pela revista que assina a curadoria dos filmes. A cidade já foi tema de interesse dos editores da publicação tanto em uma edição específica sobre as questões que envolvem uma vizinhança assim como em sessões de cineclube. Como um laboratório no qual, através das narrativas do cinema, seja possível imaginar coletivamente outros meios de experienciar e conhecer a cidade, propomos cinco encontros e a exibição de nove filmes brasileiros contemporâneos, entre curtas e longas-metragem, oriundos de diferentes cenas locais.

A mostra será inaugurada com o filme Iluminai os terreiros, de Eduardo Climachauska, Gustavo Moura e Nuno Ramos, que parte de uma instalação de onze postes de iluminação dispostos em círculo, montados em áreas inóspitas na região montanhosa dos arredores de Belo Horizonte. Segundo Ramos, esse círculo de luz que ilumina o vazio “quer descobrir o noturno, o hiato, o esquecido, o inacessível, o de passagem e a paisagem que nunca se fixa”.

O Casamento Entre a Razão e a Miséria, de Luiz Solano, é a união de dois corpos. Não opostos, mas distintos. Dois corpos. De mesma ascendência, um deles é a reprodução em escala de parte do Edifício Niemeyer (1954) e o outro a Palafita 6 (década de 1980). União sagrada e profana, porque fruto do acaso e também de um arranjo, os dois corpos se atraem pelo rigor geométrico: a regularidade de um se funde à sinuosidade do outro.

Seguindo a tradição dos arranjos, essa união tem objetivos claros. Coloca à luz desenho e construção, ao mesmo tempo que, sem nostalgia, reescreve os desafios e as pesquisas da arquitetura nacional de outrora. Êxito e falência em lua de mel.

Oceanário Artificial Internacional [Buritis], de Daniel Jesus, representa não somente a água em toda a sua potência com nascentes, rios e bacias, mas a água (e, principalmente, a vida) dos oceanos, somando-se inevitavelmente ao resgate da utilização das palafitas em suas origens, enquanto sistemas construtivos de sustentação em edificações localizadas em regiões alagadiças, desde o período neolítico.

Daí o surgimento da presente ideia: construir na palafita 09 (Maria Heilbuth Surette), uma das maiores do circuito traçado no presente edital “Outros Territórios”, um Oceanário Artificial, transformando este extenso espaço inativo, inóspito e ignorado, em foco de refúgio, de contemplação, de curiosidades e quem sabe, de sensibilidades.

Um oceanário artificial construído com boias e botes infláveis de animais realísticos e obviamente, também a representação do lixo produzido e descartado pelo ser humano, instituindo todo um universo de plástico. Afinal, como falar um oceano, de um rio, de uma mata, de uma floresta hoje em dia sem esses novos elementos intrusos e mortíferos que infelizmente fazem parte da atual natureza?

Segundo dados da Assembleia Geral das Nações Unidas, ainda de 2018, cerca de 80% dos plásticos produzidos no mundo terminam nos oceanos, significando entre oito e doze milhões de toneladas por ano e que os microplásticos já se encontram no sal e na água. Consequentemente se presume que cada pessoa no planeta tem plástico em seu corpo. A poluição por plástico nos oceanos é um desafio à escala global, como o desafio das alterações climáticas, e é um perigo para todas as espécies, incluindo a espécie humana.

Turbina Eólica Urbana, de André Brandão, propõe um sistema de captação de energia eólica a partir de turbinas instaladas nas vigas da palafita. Além de gerarem energia para o edifício, as turbinas de eixo vertical, se comportam como esculturas cinéticas refletindo a luz e a paisagem do bairro. Esta intervenção propõe uma reflexão sobre a produção de energias renováveis em meio urbano, como solução para a economia de recursos e preservação do meio ambiente. É uma proposta que busca a experimentação e explora alternativas ecológicas na ocupação da cidade com simplicidade. Reflete o uso dos equipamentos urbanos.

Todas as propostas selecionadas estão disponíveis para consulta no site do concurso, passando a ser integrante de uma galeria online de possibilidades de ocupação das palafitas. Na segunda fase, os projetos serão discutidos com potenciais patrocinadores para que possam ser efetivamente construídas durante o Festival Cultural Outros Territórios, nas palafitas (vigas e pilares aparentes) do bairro Buritis.

A premiação consiste na exposição dos finalistas no Viaduto das Artes. Se confirmado, o Festival será realizado até meados de 2020 e os autores das propostas premiadas serão convidados a executar os seus projetos dentro de um orçamento de até R$ 20 mil. A abertura da exposição e da mesa de debates ocorrem ainda no primeiro semestre de 2019.

O projeto tem como objetivo reunir um conjunto de intervenções efêmeras propostas para o Buritis, possibilitando uma mudança instantânea em sua paisagem por meio da ocupação de “palafitas” de diversos prédios ao mesmo tempo.

Um circuito de visitação a pé às instalações poderá ser criado também. Caso as propostas selecionadas sejam instaladas, haverá projeções de filmes, estufas com vapor d’água, turbinas eólicas, instalações artísticas e um oceanário artificial, entre outras possibilidades de ocupação dos espaços privados e vazios. Tudo ainda depende das respostas dos condomínios e da continuação da captação de recursos via leis de incentivo cultural.

Além do roteiro livre de visitação às obras, Outros Territórios pretende se configurar como um promotor de debates em torno de questões relativas à cidade, explorando interfaces entre arquitetura, artes visuais, iluminação pública e paisagem urbana, e problematizando a gestão da cidade, os passivos ambientais e arquitetônicos, os vazios urbanos e o mercado imobiliário.

“Discussões inovadoras como essas estão na agenda dos mais atentos agentes culturais do século XXI. É por isso que estamos entusiasmados por lançar uma plataforma de debates que será compartilhada por criadores e moradores do bairro e da cidade e que patrocinará uma nova mirada sobre o Buritis e vazios urbanos”, afirma Carlos Teixeira, fundador do escritório de arquitetura Vazio S/A e integrante da Comissão Organizadora, formada ainda pelo Coletivo Aurora e o curador Eduardo de Jesus.

Imagem em destaque: Projeto Nuvem © Juliana Sicuro Corrêa

Projetos Outros Territórios
Mais Informações:
outrosterritorios.com.br