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Galeria Genesco Murta recebe obras inéditas da mineira Aretuza Moura

Conhecida como a “garimpeira do abandono”, artista acaba de completar 90 anos
Por Redação Feira Cultural

Aretuza Moura volta ao Palácio das Artes após 11 anos © Performance Vestindo Arte /Reprodução Youtube, Vitor Moura

Toda a sensibilidade da mineira Aretuza Moura será reunida na exposição dedicada à artista, que ocupará a Galeria Genesco Murta a partir de 7 de novembro. Com obras em diversos suportes – pinturas, esculturas, gravuras e assemblages – a mostra não configura uma retrospectiva, mas reúne trabalhos marcantes da artista realizados durante as quatro últimas décadas, além de peças inéditas. A exposição tem entrada gratuita e fica aberta a visitações até 10 de fevereiro de 2019.

A curadoria é do crítico e professor de artes plásticas Marcos Hill. Segundo ele, o objetivo principal da exposição é compartilhar e avisar à sociedade mineira que essa artista existe, que acabou de completar 90 anos, e sempre trabalhou independentemente de qualquer limitação. “Já passou da hora do trabalho dela ser divulgado, e não haveria melhor lugar que o Palácio das Artes para intermediar esse processo de compartilhamento”, destaca Hill. Aretuza, que produz incessantemente desde a década de 1970 até hoje, possui uma quantidade inumerável de obras. Segundo Hill, a experiência da curadoria é uma conquista.

Tencionando a realidade do país, Aretuza atua, nas palavras de Hill, como uma “garimpeira do abandono”. As obras que compõem a exposição são feitas a partir de amontoados de plásticos,
papelões, panos velhos, sacolas, vergalhões, barris e caixotes – materiais que a artista coleta das ruas de Belo Horizonte. Aretuza realiza apropriações simples dessa matéria prima, e os dejetos que formam suas obras testemunham níveis variados da precariedade de uma cidade pós-capitalista. No entanto, assimilando esses materiais presentes no lixo ao campo da Arte, a artista os transforma em lições de solidariedade.

Segundo o curador, aproximar o público da arte de Aretuza Moura é extremamente necessário, dando destaque à uma artista tão relevante para as artes plásticas produzidas em Minas Gerais. “Quando observamos as obras de Aretuza, que possui uma trajetória intensa de produção, notamos que suas imagens buscam falar de um certo desconhecido, despertando prazeres sensoriais e causando um certo incômodo no expectador”, conta Hill. “Ela é capaz de extrair do ordinário, de materiais simples, extraordinários acontecimentos poéticos, visuais, táteis e ambientais. Vale a pena visitar a exposição e se encantar com esses trabalhos”.

Escrever o que penso (1981) © Divulgação /FCS

Aretuza Moura é uma artista inquieta que nunca parou de se movimentar no mundo das artes. “Conviver com a necessidade de criar não é tarefa fácil e nem sempre muito cômoda. Toda motivação de Aretuza emana necessariamente de um constante aprendizado. Enquanto mulher, esposa e mãe, Aretuza sempre manteve o foco de seu fazer artístico, consolidando uma atitude experimental generosa que lhe garante um trânsito livre entre as mais diversas linguagens artísticas”, destaca Hill.

A última exposição feita pela artista no Palácio das Artes aconteceu há 11 anos, na mostra Trans-tempo, em 2007. Ao dizer de um certo retorno ao espaço da Galeria, a artista destaca que sempre esteve presente, de alguma forma, observando as exposições de diversos colegas. “Estou no Palácio das Artes constantemente, mesmo como observadora. É um espaço central importantíssimo de divulgação da arte, e me sinto muito feliz por ocupá-lo novamente, trazendo produções inéditas”, conta Aretuza.

Aretuza não se considera autodidata, e destaca a importância de várias influências em seu processo de criação. “O artista nunca para, e o gosto é o que o move. Desde criança eu desenhava, e fui desenvolvendo minha forma de observar e fazer arte ao longo dos anos. Fiz museologia, um pouco de filosofia, restauração, vários cursos em artes visuais, e me inspiro através de filmes e livros”, conta a artista.

Indo do desenho para a pintura, Aretuza procura, em seus trabalhos mais recentes, tridimencionalizar as obras. A artista busca em elementos simples, muitas vezes achados no lixo, a matéria-prima para suas criações assemblages. “Gosto de captar coisas da rua, reaproveitar o que muitos chamam de ‘lixo’. As ruas de Belo Horizonte, principalmente as da periferia, me fornecem muito material”, destaca Aretuza, que realiza obras com correntes de metal, tapumes de madeira, alumínio, dentre outros objetos descartados.

As influências de Aretuza não param por aí. “Enquanto estava à procura de autonomia, vi uma exposição no Museu Mineiro chamada O Olho Pesca. Eram obras de pessoas que possuíam transtornos mentais, e me interessei muito. Apesar de nunca ter trabalhado com arte terapia, passei a dar aula no Centro de Convivência do Barreiro, utilizando da literatura, do teatro e das artes plásticas para interagir com os alunos. Foi uma experiência fascinante que teve uma influência enorme em meu trabalho”, destaca a artista, afirmando como o processo de criação é sempre um câmbio de ideias.

Foi também em um processo de troca de experiências que Aretuza conheceu Marcos Hill, atual curador da exposição. “Nos conhecemos na Universidade. O espírito inquieto da Aretuza sempre a levou a seguir muitos professores, não só na Escola de Belas Artes, como em outras unidades. Ela é uma mulher impulsionada pela cultura, pelas artes, pelas letras, e isso é uma característica maravilhosa. É uma mulher incansável, que sempre está atrás de conhecimento”, conta Hill.

O curador destaca a importância do valor dado à Aretuza na criação de uma exposição individual da artista. “O campo da arte é atravessado por diversos tipos de dispositivos mercadológicos muito perversos, expondo excessivamente alguém, ou simplesmente apagando os artistas. Sempre procurei reconhecer pessoas que, independente desse tipo de situação de mercado, de invisibilidade, encarnassem realmente o espirito artístico. Aretuza se encaixa perfeitamente nesse perfil, e suas obras explicitam a inquietação e o encantamento de uma mente lúcida que renova incansavelmente seu compromisso de viver”, conclui o curador.

Serviço:
Exposição Aretuza Moura
Período expositivo:
7/11 a 10/2
Horário: terça a sábado, das 9h às 21h; domingos, das 16h às 21h
Local: Galeria Genesco Murta – Palácio das Artes
Endereço: Av. Afonso Pena, 1.537 – Centro
Entrada gratuita
Informações:
(31) 3236-7400 | fcs.mg.gov.br