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Solo “Talvez eu me despeça”, de Beatriz França, volta aos palcos atualizado pelo contexto político e social do país

Após assassinato da vereadora Marielle Franco, espetáculo vai ocupar diferentes espaços teatrais na cidade, trazendo novos questionamentos
Por Redação Feira Cultural

Criada para homenagear a atriz Cecília Bizzoto, assassinada em 2012, o espetáculo Talvez eu me despeça, solo de Beatriz França, volta aos palcos da capital. Tratando, novamente, da finitude da vida, a impossibilidade da despedida e também a violência contra a mulher, a montagem foi atualizada, dois meses após a execução da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro (RJ), e aborda, também, as urgências que se impõem tanto em âmbito pessoal, quanto na vida social do país.

Com direção de Ludmilla Ramalho, o espetáculo, que nos últimos anos esteve em Portugal e Argentina, será apresentado em sedes de grupo de teatro, para as comunidades do entorno, para jovens em situação de semiliberdade e para público em geral. A circulação de “Talvez eu me despeça” vai passar pela Casa do Beco (14 a 17 de junho), Espaço Aberto Pierrot Lunar (21 a 24 de junho) e Casa de Candongas (28 de junho a 1º de julho), sempre de quinta a domingo, às 20h.

Atual momento social do país evoca atualizações no solo de Beatriz França © Vinícius Carvalho

Na Casa do Beco (Barragem Santa Lúcia), espaço de forte atuação no aglomerado do Morro do Papagaio que inaugura o projeto, a entrada é gratuita com retirada de senhas uma hora antes da apresentação. Nos demais locais, os ingressos custam R$10,00 (inteira) e R$5,00 (meia-entrada) e estarão à venda na bilheteria uma hora antes da sessão.

A ideia de realizar apresentações fora do eixo cultural da cidade nasceu em 2015, quando em uma das temporadas do espetáculo, a equipe de produção foi procurada, espontaneamente, por um dos centros de internação provisória de jovens em situação de semiliberdade da prefeitura.

“Os agentes entraram em contato e levaram os jovens sem saber ao certo do que se tratava a peça. Foi uma experiência de troca interessante que me fez refletir sobre a morte da Ciça não como algo isolado, mas como parte de uma guerra urbana, algo ainda mais próximo e cotidiano desses menores, o que me deu vontade de repensar alguns pontos do espetáculo e levá-lo a outros públicos “, conta Beatriz França.

Desse desejo nasceu o projeto de circulação por sedes de grupo de teatro na capital. Durante o percurso, Beatriz engravidou e teve que adiar a realização para junho deste ano. Os trabalhos para repensar a nova dramaturgia e a encenação da peça, que assumiriam agora um lugar mais político e social, recomeçam no início deste ano, quando Marielle Franco foi assassinada.

“Trabalhos autobiográficos, como o ‘Talvez’, costumam ser feitos em momentos de urgência. Depois de quatro anos de sua estreia, eu mudei, me tornei mãe, o mundo mudou. As inquietações são outras e é natural que a obra acompanhe. De poucos anos pra cá, as pessoas passaram a discutir questões que antes não vinham à tona. Assistimos a minorias se fortalecendo, ganhando voz, e, ao mesmo tempo, uma crescente onda de intolerância, violência e militarização do país. Especialmente depois do assassinato de Marielle, ficou ainda mais difícil, por exemplo, falar de violência e assassinato sem tocar na questão das mulheres brasileiras (negras, brancas, indígenas etc.), invisíveis, marginais e silenciadas nas periferias, mortas todos os dias no meio do fogo cruzado de guerras que não iniciaram. Guerras iniciadas por homens”, afirma a atriz Beatriz França.

Para Daniel Toledo, que assina a dramaturgia do espetáculo, “no contexto atual, já não podemos tratar o assassinato de Cecília sem entendê-lo como reflexo de uma realidade social em que muitas vidas humanas parecem valer muito pouco”. O dramaturgo complementa que “enquanto governantes e candidatos apostam em intervenção militar como antídoto à crise social brasileira, o tiro parece sair pela culatra. Nossa intenção agora é convocar o público a se perceber como parte de uma mesma guerra, entendendo que a almejada paz só virá quando, enfim, houver justiça social”.

Nesse sentido, a equipe artística foi provocada a atualizar o espetáculo, mas sem perder a proposta original. Entre as mudanças, vozes de mulheres e um recital de manchetes de jornal invadem o palco. O novo áudio faz menção aos assassinatos de mulheres que ultrapassaram o ambiente doméstico e alcançaram postos de protagonismo e liderança, como Marielle, até chegar ao caso de Cecília Bizzotto. Imagens reais, que anunciam situações de pré-guerra, também são acrescidas às antigas projeções, ao longo da peça.

Atualização do texto traz leituras de novas cartas dedicadas a mulheres assassinadas © Vinícius Carvalho

“Talvez eu me despeça”, desde a sua estreia, adentra a memória equilibrando reflexões universais sobre a perda e a finitude das relações humanas e aspectos pessoais sobre a solidão e os riscos que permeiam a arte e a vida. É inevitável que, frente ao contexto atual do país, a dramaturgia também seja repensada e crie mais uma camada de sentidos, mantendo assim a obra viva.

A proposta traz para cena uma inusitada festa de despedida, na qual Bião, como era chamada por Cecília, amiga e companheira de palco, convida o público a encarar o equilíbrio frágil da vida, compartilhando lembranças que emergem de objetos-memória, fotos, vídeos, mímeses corporais, cartas de familiares e amigos próximos de Cecília.

Compõe a cena uma máquina de lavar, com centenas de peças de roupas, acumuladas ao seu redor e espalhadas pelo palco e plateia, que trazem rastros de história, memória, afeto – uma forma de dizer que, apesar da morte, a vida segue, as roupas se acumulam e uma hora precisam ser levadas.

Além de atualizações no texto, trilha e nas projeções de vídeo, ao grupo de cartas de despedida – lidas originalmente para Ciça, durante o espetáculo, e escritas por amigos da artista falecida – , serão incorporadas novas cartas dedicadas a outras mulheres assassinadas.

Os textos foram colhidos na fase de pré-produção do projeto, com artistas e a partir do relacionamento da equipe do projeto com moradores que residem nas comunidades do entorno das sedes dos grupos.

Oficinas – O projeto prevê ainda três oficinas sobre Teatro Documentário e Autobiográfico: uma direcionada aos jovens em situação de semiliberdade, do Centro Dom Bosco, e outras duas, na Casa do Beco (14 e 15 de julho) e no espaço Casa de Candongas (19 e 20 de julho). Ao todo, serão ofertadas 21 vagas para cada espaço. As inscrições podem ser feitas até 1º de julho, mediante envio de currículo e carta de intenção para o e-mail talvezeumedespeca@gmail.com. A atividade é voltada para artistas, estudantes e interessados na criação a partir da relação arte e vida. A idade mínima é de 15 anos. Outras informações estão disponíveis na página oficial do espetáculo, no facebook, ou no perfil do instagram.

 

“Talvez eu me despeça” coloca em evidência a situação das mulheres brasileiras © Vinícius Carvalho

 

Serviço:
Circulação Talvez eu me despeça

Casa do Beco, de 14/6 a 17/6 (quinta a domingo), às 20h
Endereço: Av. Arthur Bernardes, 3876 – Barragem Santa Lúcia
Entrada gratuita
Informações:
(31) 3297-1455

Espaço Aberto Pierrot Lunar, de 21/6 a 24/6 de junho (quinta a domingo), às 20h
Endereço: Rua Ipiranga, 137 – Floresta
Ingressos: R$10,00 (inteira) e R$5 (meia-entrada)
Informações: (31) 2514-0440

Casa de Candongas, de 28/6 a 1º/7 (quinta a domingo), às 20h
Endereço: Av. Cachoeirinha, 2221 – Santa Cruz
Ingressos: R$10,00 (inteira) e R$5 (meia-entrada)
Informações: (31) 3444-1964 | (31) 981699-2770