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O Outro Lado do Sucesso

Por que a novela de Walcyr Carrasco pode ser considerada uma das melhores dos últimos anos?
Por Antônio Pedro de Souza

“A última frase da novela será reveladora.” Assim encerrou uma recente entrevista ao Vídeo Show o autor Walcyr Carrasco, responsável pela novela O Outro Lado do Paraíso, que teve seu último capítulo exibido esta noite na Rede Globo.

Antes, porém, de analisarmos tal frase, bem como o último capítulo especificamente, vale lembrarmos a história da novela como um todo, além do contexto histórico em que ela foi inserida, para entender o sucesso da trama estrelada por Clara, Patrick, Gael, Sophia e tantos personagens que acostumamos a acompanhar nos últimos meses.

A faixa das nove – que já foi a faixa das oito – é o carro-chefe da teledramaturgia da emissora da Família Marinho. Não que as demais faixas não sejam importantes, às vezes até superam a novela principal em qualidade e audiência, mas há décadas que as novelas deste horário param o país com seus ganchos, suas reviravoltas e, claro, suas polêmicas.

Foi próximo da virada entre 1988 e 1989 que o Brasil parou para ver o misterioso assassinato de Odete Roitman e, pouco após o novo ano ter começado, o país se reuniu à frente da TV para descobrir quem havia matado a vilã de Vale Tudo. Depois disso, outros assassinatos vieram: o assassino do Opala Preto em A Próxima Vítima, a explosão do shopping em Torre de Babel, o assassinato de Lineu em Celebridade e também histórias sem o famoso “Quem Matou?”, mas que souberam prender o espectador, como o desfecho de Altiva em A Indomada, de Adma, em Porto dos Milagres, o romance entre Bruno e Luana em O Rei do Gado, Jade e Lucas em O Clone, o beijo entre Félix e Nico em Amor à Vida e por aí vai…

O horário, no entanto, passou por perrengues – como toda a teledramaturgia, após o avanço de serviços de streaming – alternando bons títulos, com produções mais fracas. Em 2012, Avenida Brasil tornou-se um óasis em meio a produções até então claudicantes. A novela arrebatou o público na telinha e na internet. Seus personagens viraram memes, seus bordões ecoavam em rodas de conversa e a trama se tornou um frenesi tão grande que foi superexplorada pela emissora: reprisou no quadro Novelão do Vídeo Show por mais de uma vez, foi lançada em DVD e vira e mexe tem cenas relembradas em programas da casa.

Com Amor À Vida, também de Walcyr, o país conheceu as vilanias de Félix, para depois ver sua regeneração com direito a final feliz ao lado de Nico – e o primeiro beijo gay no horário nobre da Globo – em meio a essas tramas, vieram títulos como Salve Jorge, Em Família e Babilônia, que fizeram o horário oscilar novamente.

Grande aposta do horário, Velho Chico agradou público e críticos na primeira fase, mas causou estranhamento na segunda: maquiagem carregada, enredo lento e outros detalhes fizeram com que a novela tivesse uma significativa queda. Em meio a tudo isso, duas mortes no elenco fizeram com que a novela ficasse manchada, embora em termos de audiência, o saldo final tenha sido positivo.

Com A Lei do Amor, que propunha revitalizar o horário, problemas de condução da história a levaram para mais um momento negativo. A história não empolgou, embora tenha tido cenas que levaram a audiências às alturas, como no capítulo em que o personagem de Tarcísio Meira desmascara a personagem de Vera Holtz. Pra piorar a situação da novela, nas semanas finais o ator José Mayer foi acusado de assédio sexual por uma funcionária da emissora.

Na sequência, veio a bem-sucedida A Força do Querer, com suas tramas fortes, impactantes e temas provocantes: falou do tráfico, dos transgêneros, do vício em jogos, entre outros. Terminou com um saldo positivo tanto por parte do público, quanto por parte da imprensa.

Primeira cena de “O Outro Lado do Paraíso”. O primeiro capítulo foi ao ar em 23/10/2018
Reprodução Globo Play

E aí começou O Outro Lado do Paraíso. Com visual atraente, o primeiro capítulo optou por não exibir a abertura. Os créditos iniciais foram inseridos na primeira cena da novela, à medida que os cenários eram mostrados e a protagonista Clara aparecia pela primeira vez, tal qual acontecera em Verdades Secretas, do mesmo autor, na faixa das onze.

O público recebeu bem a trama e parte dos críticos também, embora nas semanas seguintes uma parcela dos espectadores tenha se afastado. Uma pequena aceleração dos capítulos aconteceu: as cenas em que Clara purgaria no hospício foram reduzidas e ela voltou, poderosa, para iniciar sua vingança. Essa segunda fase da trama ficou marcada pela frase “Vocês não imaginam o prazer que é estar de volta”, repetida à exaustão nas cenas de flashback, nas chamadas da emissora  (toda vez que Clara iniciava uma vingança contra um novo personagem) e até com a participante Gleici, do Big Brother Brasil 18, ao voltar de um falso paredão e ainda por Mariano, no derradeiro capítulo da trama.

A icônica cena do retorno de Clara – Reprodução Globo Play

A partir da volta de Clara, a novela passou por um fenômeno interessante: à medida que o público aplaudia a história, os críticos televisivos vaiavam. Parecia haver uma conspiração para falar mal da trama, conforme escrevi recentemente na matéria “Dá para ser crítico sem ser chato”.

O que foi possível perceber neste episódio é que nada, absolutamente nada que Walcyr fazia em sua história, agradava aos críticos, que dia após dia, achincalhavam a novela. Criticavam o núcleo cômico, chamando-o de pastelão, como se isso fosse apenas um insulto e desconsiderando que há, tanto no cinema quanto na TV, clássicos desse gênero. Criticavam a abordagem ao núcleo de Samuel, sem esperar pela resolução do caso, que se mostrou acertada e coerente, entre outros diversos problemas que foram criados pelos críticos, apenas para não dar o braço a torcer de que a novela era, sim, um sucesso.

Um dos críticos mais afoitos chegou a dizer que audiência não significa qualidade. Certo, pode ser verdade, mas não adianta ter uma obra beirando à perfeição e que não envolva o público – vale lembrar os já citados casos de Velho Chico e A Lei do Amor –, é preciso achar o meio-termo e, neste caso, Walcyr é mestre. Vem dele algumas das cenas mais marcantes da teledramaturgia nacional: Xica da Silva, desfilando nua por Diamantina, agitou a TV na metade final da década de 1990. O drama de Bernadete, de Chocolate com Pimenta, que descobre ser menino em vez de menina, prendeu a atenção do público ao tratar um tema forte, com a leveza que o então adolescente Kayky Brito e o público do horário das seis pediam.

Ainda a morte de Dulce, no encerramento de Morde e Assopra, o já citado beijo de Nico e Félix, as trágicas histórias mostradas em Verdades Secretas, com direito a suicídio e homicídio no último capítulo e as tramas divertidas que fizeram Walcyr ser conhecido e amado do público, como O Cravo e a Rosa e a recente Êta, Mundo Bom!

Como disse há pouco, Walcyr sabe achar o meio-termo para manter uma história de qualidade e agradar ao público, levantando a audiência. Ele cria tipos que, embora muitas vezes fantásticos, são de fácil assimilação com as pessoas comuns, que encontramos nas esquinas. Seus personagens são pessoas que amam, sentem raiva, medo, têm ambição, luxúria, enfim, passam pelas etapas da vida que qualquer ser humano comum também passa.

O autor também não tem medo de ousar e matar personagens que, por vezes, são importantes para a trama: Serena e Rafael, protagonistas de Alma Gêmea, foram assassinados na cena final para viverem seu amor eterno, enquanto a vilã Cristina  foi arrastada viva para o inferno.

Há também o processo de humanização de alguns personagens: Félix em Amor à Vida, Dênis em Caras & Bocas e agora Gael, em O Outro Lado do Paraíso, tiveram condutas questionáveis, pagaram por seus crimes e se regeneraram, recebendo da vida uma segunda chance.

Há, porém, os vilões clássicos: A já citada Cristina, a recente Sophia, a Marcela, de O Cravo e a Rosa; e o Ernesto, de Êta Mundo Bom! eram seres cruéis, que não tinham escrúpulos e eram responsáveis por grandes atrocidades nas tramas. O autor sabe como criá-los e conduzi-los pela trama.

Walcyr também é conhecido por suas referências: Em O Cravo…, o autor se baseou em A Megera Domada, de Shakespeare. Em A Padroeira, foi o livro As Minas de Prata, além da história de Nossa Senhora Aparecida, que deu o pontapé inicial para a história. A Viúva Alegre foi a base para Chocolate com Pimenta, que referenciou, ainda, A Odisseia, de Homero.

Zé Vítor enfrentas as forças sobrenaturais de Mercedes – Reprodução Globo Play

E há o sobrenatural: a trama católica de A Padroeira teve momentos replicados em Êta Mundo Bom (quando uma santa cai e impede que a mãe de Candinho assine um papel que passaria todas as suas posses para a sobrinha golpista) e agora em O Outro Lado…, por meio da personagem Mercedes, que constantemente fala com seres superiores. O ponto máximo foi a cena em que o sobrenatural afugentou Zé Vitor, impedindo as mortes de Xodó e Mercedes.

Além do catolicismo, está presente o espiritismo: a já citada Alma Gêmea e a refilmagem de O Profeta (que foi supervisionada por Walcyr) são alguns exemplos.

Com O Outro Lado… as religiões de matriz africana tiveram espaço – ainda que pequeno – por meio das cenas do quilombo, onde parte da trama se desenvolvia.

FIM

No penúltimo capítulo, a trama se concentrou no julgamento de Sophia, grande vilã da história que fez Clara penar durante boa parte da novela. Ao fim, numa reviravolta do destino, o advogado de Sophia consegue jogar a justiça contra a Clara que fica a um passo de ser presa. O autor ousou ao concentrar praticamente todo o capítulo no tribunal – para quem reclamou do tamanho das cenas, sugiro assistir ao filme Onze Homens e Uma Sentença.

Sophia descobre que Zé Vítor está vivo e irá depor contra ela – Reprodução Globo Play

Na última parte, único trecho que se passou fora do tribunal, é revelado à Clara a existência de uma testemunha que poderá salvá-la nos instantes finais. Quando o capítulo termina, Mariano, que os personagens julgavam morto, entra no tribunal. Esse foi o gancho final da novela. No último capítulo, a Grande Mãe do Quilombo e Mariano depõem e conseguem reverter a situação. Contra eles, nem o astuto advogado de Sophia conseguiu argumentar. Sophia é condenada, mas isso não era o suficiente para Clara, que queria que sua algoz passasse pela mesma situação que ela passara no começo da novela.

Auxiliado por dois psiquiatras, um deles chamado Alexandre Dumas (o mesmo nome do autor de O Conde de Monte Cristo, no qual Walcyr se inspirou para escrever as cenas de Clara no hospício), o doutor Samuel emite um laudo explicando que Sophia é uma psicopata. Ela, então, é enviada para o manicômio judiciário que funciona nas mesmas instalações do antigo hospício em que Clara ficou.

O final da vilã foi clássico: passou por tudo o que Clara passou, ao melhor estilo da música-tema da novela: “Tudo o que você faz, um dia volta pra você…”. Lá, Sophia recebe apenas a visita de sua filha Estela, a quem ela sempre rejeitou, e seu genro. A vilã acaba aceitando o amor da filha e passando a amá-la também.

Sophia é internada no manicômio judiciário – Reprodução Globo Play

Quanto aos demais personagens, Zé Vítor foi preso por ser cúmplice nos crimes de Sophia, Mariano e Lívia se acertam, Gael tem a nova chance ao lado de uma mulher que sofria agressões do marido – e confessa a ela que ele também se portava do mesmo jeito -, Beth lança sua grife em um desfile na São Paulo Fashion Week, uma cena com direito a participações de Gleici, vencedora do BBB18 e Ana Furtado, apresentadora da Globo. Pablo Vittar também deu as caras no último capítulo, cantando no velório de Dona Caetana – sim, ela morreu em um dos momentos mais emocionantes do capítulo – que subiu cantando e dançando para o céu. Mercedes e Josafá tiveram um lindo momento de amor e intimidade e Clara, depois de muito titubear, se entregou a Patrick em uma cena quente!

Ao fim, protagonista e advogado se casam e Thomaz consegue chamá-la de mãe, numa cena que remete ao final de Chocolate com Pimenta.

Clara, Patrick e Thomaz ficam juntos no fim. A cena remete ao final de “Chocolate com Pimenta”, também de Walcyr Carrasca – Reprodução Globo Play

A última frase da novela ficou a cargo de Dona Mercedes que, encarando a câmera, repetiu a frase que acompanhava a estreia da novela: “Quando o mundo acabar, haverá apenas o Tocantins…”. Mercedes começa o monólogo dizendo: “Esta é a história da Clara, uma das muitas histórias que acontecem no Jalapão, no Tocantins. Quando o mundo acabar, só vai restar o Tocantins. Surgirá uma nova civilização, sem guerra, sem ódio, baseada no amor, na fraternidade. Até lá, a luta continua: a luz contra a escuridão…. É! E, meu Deus! Mesmo com tanto sofrimento, com dor e, por que, não? Com alegrias…A gente vai alcançar a luz maior. A luz maior! A luz maior!”

E não foi isso o que a Clara fez? Em meio a dores e sofrimentos, encontrou momentos de alegria para alcançar sua luz maior, sua felicidade plena ao lado dos entes queridos.

Clara passou pelo Outro Lado do Paraíso, viveu o inferno e voltou para se reerguer e alcançar o amor do filho, à medida que tentava criar, ela mesma, um amor por Patrick, seu anjo da guarda na segunda fase.

Em um truque de metalinguagem, Walcyr ousou e inovou de novo, encerrando a novela exatamente como uma obra de ficção: Após pronunciar as palavras acima, Mercedes continuou olhando fixamente para a câmera que se afastou e revelou o cenário sendo desmontado. Depois, a câmera se aproximou de novo do rosto de Mercedes, usando o recurso de “tela fechada” que era exibido nas chamadas de estreia da novela, voltando também para o ponto inicial da trama, mostrando que a história de Clara é apenas uma, das várias que acontecem naquele pedaço do país…

O autor usou de metalinguagem no fim, explicando que tudo o que vimos não passou de uma boa e simples história de ficção – Reprodução Globo Play

 

Assim, O Outro Lado do Paraíso se encerra como uma fábula, uma história surrealista criada a partir de pinceladas do cenário paradisíaco e da mente fértil de um autor que domina a arte da escrita. Com isso, referências, entraves e até alguns deslizes – ressaltados insistentemente pelos críticos nos últimos meses – ganham novo significado: tudo o que se viu foi um conto de fadas, com direito à bruxa má, os mocinhos apaixonados e outros elementos tão comuns do mundo literário…

Este é apenas um dos motivos que ajudam a entender o sucesso de O Outro Lado do Paraíso, os outros, estão descritos nos parágrafos acima e fazem parte do estilo de Walcyr. Dentre eles, merece destaque o respeito que o autor tem pelo seu público: como dito lá atrás, ele cria tipos de fácil assimilação, que transmitem conexão com quem os assiste, além de criar histórias que chamam a atenção exatamente pela sua simplicidade.

Se audiência não é sinônimo de qualidade, trazer temas polêmicos ou simplesmente criar merchandising social apenas para agradar uma parcela dos críticos também não é sinônimo de uma boa história. Às vezes, tudo o que o público quer e precisa em um determinado momento é uma história interessante, atraente e simples. O simples não significa ruim, não significa falta de qualidade e Walcyr Carrasco sabe bem disso… E sabe bem como conduzir uma trama assim. Que venha sua próxima história!

A última cena de “O Outro Lado do Paraíso” – Novela teve seu último capítulo exibido em 11/05/2018 – Reprodução Globo Play