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Os atores Pedro Mazzepas e Thiago Cazado em cena do espetáculo "O Sétimo Andar" - Foto: Antônio Pedro de Souza

Crítica: O Sétimo Andar

Thiago Cazado inova na segunda parte da “Trilogia dos Elevadores”, debatendo a temática LGBT com humor e romantismo
Por Antônio Pedro de Souza*

Dois jovens executivos chegam para mais um dia de trabalho e, a caminho de suas respectivas funções, ficam presos no elevador do edifício. Para quem acompanha a carreira do dramaturgo Thiago Cazado, a semelhança de roteiros entre O Sétimo Andar e Relatos Não Oficiais Sobre o Andar 43 é de imediata percepção. Engana-se, porém, quem imagina que a atual peça é mais do mesmo ou, simplesmente, uma releitura do espetáculo que passou pela capital mineira em 2015. Na verdade, de acordo com o próprio Thiago, O Sétimo Andar é a segunda parte de uma trilogia iniciada com Relatos Não Oficiais…

Se no primeiro espetáculo, Cazado usou de uma carga dramática altíssima para debater o preconceito aos homossexuais, agora ele usa do humor para falar do mesmo tema. O debate sobre o preconceito está ali, mas em vez de uma experiência maquiavélica vista na peça anterior, temos uma experiência psicodélica e bem humorada a partir do ponto de vista dos protagonistas.

Há, claro, inúmeras referências entre os espetáculos, incluindo a voz que atende o interfone de emergência, dizendo a célebre frase que um jogador de futebol disse ao saber de uma punição pós-partida: “É mesmo? Que merda, hein?”. Nos dois espetáculos, dois jovens que trabalham em uma importante empresa (indústria farmacêutica em Relatos… e banco em O sétimo…) ficam presos no elevador após uma pane e passam a se conhecer melhor, dando voz aos seus instintos muitas vezes reprimidos pela sociedade em que vivem. As semelhanças, porém, param por aí.

O texto de O Sétimo Andar é mais leve, abrindo espaço para piadas e utilizando a metalinguagem como uma poderosa ferramenta na condução do roteiro. Enquanto em Relatos… descobre-se, no fim, que os jovens foram vítimas de uma experiência da própria empresa, em O sétimo… vemos que a experiência foi feita sob um novo prisma (não vou dar spoiler disso, afinal a peça só foi encenada duas vezes!!!). O que posso dizer é que a velha máxima “as aparências enganam” cabe perfeitamente no resultado do espetáculo.

Vale ressaltar também que a inovação no texto de Cazado, se dá não só em relação à primeira parte da trilogia, mas a sua obra em geral. Outra vez, sem entregar pontos primordiais do enredo, posso garantir que o final é diferente de tudo o que já foi visto no currículo do dramaturgo: não dá aquele soco no estômago de Relatos…, não faz com que choremos como em Enquanto Todos Dormem (um dos maiores sucessos de Thiago Cazado) e, talvez por isso, seja tão bom: afinal, é inesperado.

Inesperado para quem já se acostumou com o texto forte e passagens pesadas das obras anteriores e talvez inesperado até para quem está conhecendo o trabalho de Cazado agora.

Outra característica que difere as partes 1 e 2 da trilogia é a ambientação: enquanto em Relatos… toda a trama se passa em um elevador, em O Sétimo…, o autor se permite levar a peça para um segundo ato, contando os eventos pós-elevador. É na transição entre os atos 1 e 2 que o público realmente descobre o que aconteceu no espaço minúsculo até aquele momento. É nessa hora também que a metalinguagem se faz mais forte.

O segundo ato, ambientado em uma praia, serve como um grande epílogo, explicando como os personagens chegaram até ali e como guiarão suas vidas a partir daquele momento.

Para entender o enredo, é preciso estar atento aos detalhes, afinal, durante a encenação, são fornecidos dados como o tempo em que os protagonistas se conhecem, como chegaram ao banco e até mesmo o motivo pelo qual estão naquele elevador no momento em que o roteiro se inicia.

Em relação aos elementos cênicos, a visão entre Relatos… e O Sétimo… também muda: se na primeira peça o público assumia a visão da parede dos fundos do elevador, agora nós temos o compartimento colocado na diagonal sobre o palco, assim, podemos mudar nossa percepção do que quer ser passado – ou ocultado – ao longo da narrativa. Em vez de uma parede, assumimos agora a visão de uma parede e das portas do compartimento.

A iluminação também conduz o roteiro de forma brilhante e Thiago ousa mais uma vez ao transformar o elevador, em determinado momento, em uma boate com luzes piscando e música alta. Aliás, esse é o ponto alto do erotismo e também do humor na peça. É aqui que os protagonistas se soltam de vez das amarras impostas pela sociedade, vivem seu melhor momento, e voltam à realidade pouco depois.

Algumas passagens lembram histórias consagradas como Jogo Perigoso, de Stephen King (transformado em filme ano passado) ou a trilogia picante Cinquenta Tons de Cinza. Mas não se enganem: é o jeito Thiago Cazado de contar uma boa história que domina o espetáculo. Por isso, além do curta metragem Tenho Local, do próprio Cazado, no qual a peça é baseada, percebemos algumas semelhanças com o enredo enérgico de Gorjetas.

Durante os 80 minutos de espetáculo, cabe apenas uma ressalva: em alguns momentos, objetos cênicos, como uma garrafa, uma bolsa ou partes dos corpos dos atores, “escapam” pelo cenário do elevador. Nada que diminua o brilho da peça, mas, nesse momento, um pouco da magia teatral de que eles estão mesmo em um elevador, se dissolve. Ressalto, porém, que a peça estreou nesse fim de semana e, portanto, contém apenas duas encenações feitas e esse detalhe pode ser facilmente aprimorado nas apresentações seguintes.

O entrosamento entre Cazado e Pedro Mazzepas, com que divide a cena, é perfeito: Enquanto Cazado faz o tipo “aventureiro”, que se permite viver uma louca paixão em alguns minutos de confinamento, Mazzepas dá o tom exato de introspecção (ou falsa introspecção) que seu personagem pede. Ele quer viver as aventuras propostas pelo outro, mas está sempre com um pé atrás, pensando nas possíveis consequências. Podemos dizer que o personagem de Mazzpas é o “falso tímido” que tanto amamos nas comédias românticas (algo como o Paul Finch de American Pie), enquanto Cazado faz o “aluno que almeja ser o mais popular do colégio”, mesmo que para isso, esbarre em situações peculiares (algo como o Kevin Myers, também de American Pie). Depois, claro, tudo é desconstruído e abre espaço para os vários pontos de vista propostos pelo espetáculo, deixando no ar a pergunta: somos nós que estamos assistindo a peça ou são os personagens que estão nos assistindo? Onde está encaixado o voyeurismo originalmente proposto?

Em relação ao enfoque de O Sétimo Andar, em entrevista concedida por Thiago Cazado em 2015, ele me disse que Relatos Não Oficiais… se concretizou após sua percepção dos protestos de 2013. Enquanto muitos protestavam sobre causas justas, começaram a veicular em meio às manifestações algumas causas sombrias e, a partir daí, teve início o processo de criação da peça. Sobre Enquanto Todos Dormem, Cazado preferiu contar uma história clássica de amor, centrada em dois jovens recrutas. Aqui, o autor inova ao abordar com humor essa relação amorosa, mostrando que o combate ao preconceito pode, sim, ser feito de forma leve e divertida. Podemos dizer ainda que Bernado e Luigi, protagonistas desta história, conseguiram o que os personagens anteriores de Cazado tanto lutaram: firmar seu amor em um mundo cada vez mais caótico.

Em uma rápida conversa antes do espetáculo, Cazado garantiu que a terceira parte da Trilogia dos Elevadores já está em processo de formação, mas como ele mesmo adiantou: “tudo pode mudar a qualquer momento, então, prefiro não dar detalhes sobre esse novo texto agora.” – Ele ri e continua – “Vai que eu te falo agora como a história será, depois mudo todo o roteiro e quando ela finalmente estrear, você verá e dirá: ‘Que cara louco! Não foi nada daquilo que ele me falou!’ Então, prefiro aguardar mais um pouco!” Mais risos.

Se o próprio Thiago afirmou que tudo pode mudar a qualquer momento, só podemos esperar uma terceira parte tão boa e inovadora quanto foram Relatos… e O Sétimo…, aguardemos, então, as cenas dos próximos capítulos.

Enquanto isso, O Sétimo Andar, que teve sua estreia nacional na capital mineira, segue agora para a terra natal de Cazado, Brasília, e de lá, para todo o país.

*O jornalista assistiu ao espetáculo a convite de Thiago Cazado.