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[CENSURA] Site Feira Cultural é impedido de cobrir evento público em Belo Horizonte

Mulher presente no evento disse não ter gostado do “clima” do jornalista que cobria conversa de comunidade LGBTIQ+ com secretário municipal da cultura
Por Antônio Pedro de Souza

 

Segunda-feira, 18/12/2017, aproximadamente 17h20. O site Feira Cultural, representado por mim, jornalista Antônio Pedro de Souza, foi impedido de seguir com a cobertura de uma conversa pública entre a comunidade LGBTQI+ e o secretário de cultura de Belo Horizonte, Juca Ferreira.

O evento, divulgado em redes sociais e aberto à comunidade em geral, acontecia na Secretaria de Cultura de Belo Horizonte das 16h às 19h. Fui ao local devidamente identificado com o crachá do site e, ao chegar ao local, às 16h30, como o secretário já estava fazendo apontamentos, fui para a última fileira em silêncio. Após ter feito algumas fotos, uma funcionária da secretaria de cultura se aproximou e eu me apresentei. Educadamente, ela que não teria problema em eu continuar cobrindo o evento e chamou Bruno Lélis, um dos organizadores do bate-papo.

Bruno foi igualmente educado ao se apresentar. Trocamos contatos e eu expliquei o motivo da pauta. Ele conversou com a assessora do secretário e, em seguida, voltou novamente a conversar comigo, pedindo que, quando a matéria estivesse pronta, o link fosse enviado para o movimento Um beijo no seu preconceito, do qual é coordenador, e para a Secretaria de Cultura.

Voltei a fotografar e filmar alguns trechos da conversa para utilizar na matéria que seria publicada neste veículo. Em determinado momento, um rapaz da plateia se aproximou e me perguntou – também de modo educado – para qual veículo eu trabalhava e, em seguida, disse que não gostaria que sua imagem ou voz fossem publicadas. Respondi-lhe que usaria apenas imagens do secretário na matéria. Pouco depois, outra pessoa me pediu a mesma coisa e minha resposta foi idêntica.

O evento continuou de modo tranquilo, com apontamentos pertinentes sobre a causa LGBT tanto por parte do secretário, quanto por parte da plateia. Por volta das 17h20, enquanto estava em pé, próximo ao primeiro rapaz que pediu para não ter imagens divulgadas, filmando o secretário, uma mulher pediu a vez para falar e disse que, antes de o evento continuar, ela gostaria que eu me apresentasse a todos e falasse o que eu estava fazendo ali, uma vez que eu cheguei sem falar nada com ninguém e já comecei a fotografar e que ela não gostaria de ter suas imagens divulgadas. Em seguida, ela começou a me filmar com o celular.

Após o secretário me passar a palavra, apresentei-me e disse que não usaria imagens da plateia, apenas no secretário. Disse ainda que trabalhava para o site Feira Cultural, e que minha função ali era cobrir o evento, dada a sua importância para as políticas públicas e também para a área cultural da capital mineira.

Na sequência uma segunda mulher tomou a palavra dizendo que não havia gostado do meu “clima” e que achava melhor eu não continuar com a cobertura. Perguntei o motivo e ela disse que havia me reconhecido e que eu estivera no Palácio das Artes no dia 09 de outubro e por isso não era bem vindo ali. Deixei claro a todos que não fui ao Palácio das Artes durante a semana de protestos contra e a favor das exposições – na ocasião, recebi convites de vários artistas para cobrir o movimento, mas devido a compromissos pré-agendados, não compareci ao local em nenhum dos dias – e  que tive a permissão do organizador do evento para permanecer ali. Bruno lembrou que o encontro com o secretário de cultura era público.

Novamente, a mulher disse que não fazia questão que eu cobrisse o evento e que eu poderia ir embora e disse novamente que ela não havia gostado do meu clima nem das minhas intenções na cobertura da reunião. Para ela não importava o que seria publicado em meu site, blog ou o que fosse.

Salientei mais uma vez qual era o meu trabalho ali e novamente a mulher disse que ela gostaria que eu fosse embora, que ela estava me mandando sair.

Para evitar mais problemas, agradeci ao secretário de cultura, sua assessora, ao Bruno e deixei o local.

É importante, porém, ressaltar que o site Feira Cultural iniciou suas atividades em janeiro deste ano sempre prezando por passar informações de qualidade, que visem informar nossos leitores acerca do cenário cultural de Belo Horizonte e Região Metropolitana, bem como discutir assuntos que estejam em voga. Nossas pautas são abertas a discussões que possam melhorar o convívio entre as pessoas, respeitando a diversidade.

Passei a integrar a equipe do site Feira Cultural em abril, inicialmente como colunista cinematográfico e, em pouco tempo, tive liberdade para transitar por variados assuntos. Quando o site foi reformulado entre maio e junho, em nossa primeira reunião de pauta, salientamos a importância de abranger outros temas quando isso se fizesse necessário. Assim, nos posicionamos politicamente contra a censura que tentou barrar mostras artísticas em diversos pontos do país, sempre respeitando, como disse anteriormente, a diversidade e a liberdade de expressão.

Pessoalmente, embora tenha me graduado há pouco tempo, atuo no cenário jornalístico belo-horizontino desde 2013, quando iniciei meus estudos na Faculdade Pitágoras. Fiz matérias para alguns jornais da capital, tive fotos publicadas em veículos impressos e na web e trabalhei com alguns dos principais assessores de imprensa da cidade.

Nesse tempo, cobri eventos particulares e públicos, com poucas ou milhares de pessoas e nos mais diversos cenários: ruas, praças, estádios, teatros… Nesse tempo, nunca fui impedido de realizar meu trabalho em nenhuma ocasião. Nunca haviam pedido para que “eu me retirasse” de nenhum lugar sem realizar a cobertura do evento em andamento.

 

Atualmente, além desse espaço no site Feira Cultural, mantenho um blog e um canal no Youtube, além de participar de um programa informativo em uma rádio de Vespasiano, na Região Metropolitano e, repito, todas as minhas pautas – no Feira, no blog, no Youtube e na rádio – prezam pela qualidade das informações passadas e pelo respeito a todos.

Como ser humano, não aceito nenhum preconceito. Como jornalista, não posso aceitar também nenhuma forma de censura aos meios de comunicação.

Como bem salientou o secretário Juca Ferreira em uma de suas falas durante o evento: “não podemos permitir que o país volte ao retrocesso de cinquenta anos atrás, onde reinava a ditadura e onde não tínhamos direitos básicos.”

Chega a ser irônico que algo assim tenha ocorrido, já que na própria página de divulgação do evento, há frases como “Uma conversa fundamental na busca pela ocupação e democratização dos nossos espaços de representação política e também dos espaços públicos de arte.” e “Essa é uma oportunidade de troca e diálogo com a secretaria municipal de cultura” ou ainda “Frente ao crescimento da onda reacionária e dos debates de censura que atingem diretamente a comunidade LGBTIQ+, o encontro busca reunir artistas queer de diversas linguagens artísticas e experiências, de modo a levantarmos e discutirmos horizontalmente com a Secretaria Municipal de Cultura as demandas e propostas da nossa população.” Ou seja, ali era o local próprio para o diálogo, para troca de ideias, e o que ocorreu foi o impedimento de um profissional da imprensa de exercer o seu trabalho que, naquele momento, era repassar para outros que não puderam estar ali, as propostas apresentadas, tanto pela comunidade, quanto pelos órgãos oficiais para possibilitar a abertura de um diálogo mais amplo.

Quando se impede o diálogo, impede-se uma importante interação entre duas ou mais pessoas; quando se impede o diálogo, impede-se que ideias sejam expostas para apreciação geral; quando se impede o diálogo, impõe-se uma mordaça, cala-se uma voz, impede-se um questionamento, uma reflexão e uma provável solução para um problema. Quando se impede um diálogo, abrem-se as portas para a censura, que é um dos primeiros passos para uma ditadura.        

Encerro esse texto com a frase que disse pouco antes da minha saída da secretaria de cultura no fim da tarde de hoje: É lamentável que um evento que vise diminuir as desigualdades sociais e que pregue o respeito entre as pessoas, termine em censura.